31/10/2011
Neste final de semana, recebi por e-mail uma denúncia sobre o portfólio de uma estudante do 3º ano de uma faculdade de design daqui de São Paulo, que continha em seu flickr um plágio de um projeto nosso. Chateado mas ao mesmo tempo preocupado com esse tipo de ocorrência cada vez mais freqüente, resolvi escrever a ela.
Como achei que a questão pudesse também interessar a outros estudantes, e como a mensagem esclarece questões jurídicas e morais, decidi publicar a carta aqui, omitindo o nome da estudante, da cliente e da faculdade. Segue abaixo o e-mail.
Oi ________.
Como você ainda é estudante, vou lhe dar uma oportunidade única. Que agora talvez a deixe irritada mas que, quem sabe em alguns anos, você consiga entender sob outra perspectiva: a de alguém que quer lhe ajudar.
Parte dos estudos que você fez para sua cliente__________ , são claramente um plágio da marca da nossa cliente TUDO TORTAS. O anel externo que simula uma torta vista por cima é idêntico e não há como existir coincidências neste caso. Sei que todo o restante foi mudado, que tudo mais na marca é diferente, mas essa parte foi copiada, o que perante a lei, dá no mesmo: é plágio.
Independente se a sua cliente está ou não usando a marca, o plágio, enquanto crime ( Lei N° 9610), está estabelecido, mesmo se tratando de um plágio parcial. Você colocou em seu flickr como um trabalho seu, algo que de fato não o é.
Tudo bem que ninguém vai para a cadeia no Brasil, principalmente por um plágio. No máximo faz algum serviço comunitário. Mas é importante conhecer os riscos. Pois se condenado: deixa de ser réu primário; fica fichado na polícia; fica impedido de exercer cargo público ou participar de concurso. É algo para vida toda.
Não sei o quanto os seus professores ensinam sobre plágio na faculdade, mas mesmo a cópia parcial continua sendo vista pela justiça como um crime. Mais do que isso, é também muito mal vista pelos colegas de profissão, o que pode lhe prejudicar muito no futuro se isso viesse a tona. Afinal, o que temos de mais valioso é a nossa reputação.
A sorte é que, como a sua cliente não aprovou e não usou esse estudo com o plágio, ela mesma não será processada pela nossa cliente que detêm os direitos patrimoniais e o registro da marca no INPI. Mas se isso ocorresse, é provável que depois você mesma fosse processada pela sua cliente pelo ressarcimento de todo prejuízo que ela iria arcar, colocando em risco os bens seus e da sua família. Algo que certamente não vale a pena.
Sei que o plágio é muitas vezes tentador. Tenho que admitir que durante a minha faculdade eu mesmo fui tentado em um projeto, afinal, a solução que eu tanto procurava já estava ali, pronta! Mas tomei a decisão de não fazê-lo. Percebi que ficaria para sempre com medo da vergonha de alguém descobrir, e também que ao fazê-lo perderia a oportunidade de criar algo novo, original. Perderia também a oportunidade de aprender com as dificuldades do projeto.
O plágio é fácil. Resolve em minutos o sofrimento de inúmeras horas de criação e tentativas sucessivas frustradas de se encontrar a solução ideal, que muitas vezes, já está ali, pronta. Mas criação é isso mesmo: uma sucessão de fracassos e frustrações, até que então, com muito suor, chegamos à solução final.
Prefiro imaginar que você não fez por mal, mas por desconhecimento. Até mesmo porque você já favoritou projetos no nosso flickr, e pelo visto, acompanha o nosso trabalho.
Peço então que você reflita sobre o que escrevi com carinho, mas também que imediatamente retire os estudos do seu flickr.
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É, pois é.
Legal sua postura, nos mantenha informados sobre o resultado, se ela tirou do ar, se entendeu, se isso acontecer, ainda existe esperança.
Abs,
Sempre bate uma baita curiosidade de ver o projeto e saber quem foi que fez o plágio rsrsrsrs
Não é nem questão de plágio é falta de referência mesmo. E também nem achei o logo bom.
http://www.tudotortas.com.br/
É esse mesmo?
Que bom que vocês entenderam que este momento desagradável pode ser uma chance de aprendizado para a estudante e ainda, publicando o texto acima, reforca tudo que estamos falando em sala de aula. Sou professora do Curso de Design da PUC Goiás e tenho insistido numa clara postura em relacao à autoria nos projetos. Vale muito para nossa argumentacao podermos nos referir a um fato concreto. Vou usar o texto de vocês, com as devidas referências, para mais reflexoes em sala de aula.
Quem chamou a atencao para o texto de vocês foi uma aluna nossa que postou um link no facebook.
Na Alemanha existe um mecanismo que tenta inibir o plágio, nao sei se conhecem. Existe a publicacao de um prêmio que ninguém quer receber, que é o “Anao de Jardim” para empresas que praticam plágio descarado. Empresas como a IKEA volta e meia sao agraciados e amplamente divulgados.
Vamos colocar o acompanhamento sim Camila.
Petter, em outros casos sempre delatamos o detrator, mas neste caso por ser estudante, achei o contexto diferente. Embora o crime seja o mesmo, vi como uma oportunidade melhor de ensinar.
Sim Daniel, a marca original é da TUDO TORTAS, nosso cliente. Pena você não ter gostado da marca, mas entendemos isso como natural. Nós mesmos não gostamos de muitas das marcas que criamos, mas por um motivo bem simples: não somos parte do público delas.
Projetamos sempre para os clientes dos nossos clientes.
Nunca para o nosso cliente e nunca para nós mesmos.
Oi Edith, pode usar o texto.
Precisamos de muitos “anões de jardim” no brasil. De acadêmicos a profissionais de mercado, de empresas a políticos.
Em novembro estaremos eu e o Akira no R aí em Goiás!
Recebi ontem uma resposta muito bacana da Estudante, e novamente ocultando o nome, achei interessante compartilhar com vocês:
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“Primeiramente muito obrigada pelo conselho, já retirei a imagem com os estudos do meu Flickr.
Meus professores sempre me orientam em relação ao plágio, principalmente este ano em que estamos desenvolvendo um Pré-TGI. Na verdade, como vocês mesmo citou, a marca que apresentei nos estudos não é completamente igual à existente, e sim, apenas o símbolo, por isso acreditei que não haveria problema em colocá-la no Flickr e também porque não foi a escolha final da cliente. Engano meu.
Tinha colocado lá apenas para mostrar minha linha de raciocínio, mas já estava planejando retirá-la, assim como outros trabalhos antigos que atualmente não são o foco da área em que quero atuar. Mas ao mesmo tempo que em um portfolio os projetos bem conceituados e alinhados com a área desejada são importantes, acredito que a evolução do nível dos trabalhos em geral, principalmente no meu caso como estudante, deve ser mostrada. Aí fico em dúvida, se retiro esses trabalhos ou não, mas enfim.
Agradeço mais uma vez a sua ajuda e peço desculpas a todos, caso tenha prejudicado a empresa, sua imagem e o trabalho da Sebastiany, não foi minha intenção de forma alguma, claro, até já enviei meu currículo pra vocês, gosto muito dos projetos, seria contraditório. E não me deixou irritada, afinal não aprenderia nada se não errase, certo?”
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