Existe Mesmo Liberdade Criativa?

01/09/2010

Entre nós designers, é comum encontrarmos aqueles que adoram citar regras de criação. Principalmente quando o assunto é o desenho de um símbolo ou logotipo para uma marca. Mas curiosamente os mesmos designers que vejo ditando regras ou normas são muitas vezes os primeiros a reclamar da tal “falta de liberdade criativa” usualmente por “culpa do cliente”… Segundo eles.

É estranho e incoerente esta posição de quem impõem regras aos outros, mas não aceita limites quando lhe são apresentados. Parece ser sempre uma disputa de poder entre aquele que “sabe mais” e aquele que “manda mais” no projeto, como se a liberdade para criar estivesse relacionada à posse, àquele que verdadeiramente é o “dono na marca”: o criador ou o contratante.

Mas meus caros amigos, a marca de uma empresa não pertence nem ao seu CEO (infelizmente para ele), nem ao seu criador (infelizmente para nós). A marca pertence sempre ao público que ela visa atingir. Sua identidade visual, traduzida em seu símbolo, logotipo, cores, formas, texturas etc, existe para comunicar algo para este público, sobre a empresa, serviço ou produto que lhe é oferecido. A marca visual existe para ser notada e lembrada, para identificar e diferenciar, e principalmente, para criar uma percepção.

Por isso, mesmo que em algum momento a tecnologia resolva todos os problemas técnicos de reprodução, estaremos sempre limitados pelos objetivos do projeto, do público a que se destina, mercado e segmento. Portanto, a tal “liberdade criativa” em design de marcas será sempre uma ilusão. O simples entendimento do problema define limites para a criação, e quanto mais conhecermos os problemas de um projeto, menos liberdade teremos para criar.

Isso é ruim? Não! Superar problemas pode não ser uma tarefa fácil, mas certamente é uma das mais gratificantes. Se por um lado este conhecimento limita as direções da criação, por outro ajuda a ir mais longe e a fundo nos caminhos trilhados, estimula a superação de obstáculos e no final: excita a criatividade.

“Liberdade para criar”, convenhamos, é a ilusão de um ego que não aceita encarar de frente os desafios, problemas, obstáculos que acompanham qualquer processo projetual. De quem, se por um lado protege-se contra a frustração, priva-se também do prazer gratificante da superação. No design as melhores soluções sempre surgem dos maiores problemas, nunca da privação de obstáculos.

  • Artigo publicado originalmente na revista Computer Arts Projects / Brasil, Edição 12, Julho 2010

Escrito por: Guilherme Sebastiany

7 Comentários para “Existe Mesmo Liberdade Criativa?”

  1. Concordo completamente com o texto.

    Já vi vários criativos levantando a bandeira do “Definir é limitar”, mas discordo. Prefiro “Definir é a melhor maneira de atingir quem interessa, o cliente”.

    Ainda mais se não tivermos essas “limitações”, poderíamos criar algo completamente errado,ou ainda sermos obrigados a cair em gosto pessoal do contratante, chefe ou de nós mesmos. Daí nesse ponto deixamos de ser designers e viramos artistas.

    Abraços.

  2. Revista super cara, conteúdo super fraco. Não gostei como a revista “trata” o design de marcas. Parece ironia, mas seu texto vai contra grande parte do conteúdo da revista, ainda bem! Pois ele salvou meu dindin. Parabéns! Belo texto!

  3. Oi Tiago, tudo bem!

    Acho que esse foi o elogio mais estranho que já recebemos aqui no blog… rs!

  4. Helder Tobias disse:

    Olá Guilherme,
    Tudo bem?
    Parabéns pela matéria. Gostei muito da abordagem.
    Sou estudante de publicidade, e gosto muito da área do design. Como faço para adquirir um exemplar desta revista?
    abraço,
    helder

  5. Rafael disse:

    MAndou muito bem Guilherme! Designer ou Diretor de Arte que não gosta de briefing é porque não possui segurança do que está fazendo. Quer simplesmente criar sem fundamento baseado no seu gosto pessoal. Vejo muuiiito isso. Fui seu aluno no Design Total e fiquei muito orgulhoso em ver esse artigo seu. Parabéns!

  6. Oi Helder, acho que o ideal é procurar diretamente no site da revista por edições anteriores.

    Rafael, obrigado pelos elogios! Fico feliz em saber que gostou!

  7. Roger Waters disse:

    Cara, o que adianta pesquisar, estudar técnicas,
    usar a tipografia correta,
    layout limpo e etc.. se no final,
    seu chefe (que não entende nada disso)
    muda tudo pro design ”coxinha”.

    Trabalho em uma gráfica em Goiânia.
    Tenho que sair daqui, e ir para um
    lugar melhor, rápido.

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