14/06/2010
A questão do mobiliário urbano nas cidades brasileiras sofre com uma problemática variada. Além dos conhecidos problemas com a depredação, falta de manutenção, e mudanças de governo, onde cada novo governante adota uma nova padronização para o mobiliário de sua cidade, (o que fica bastante visível na grande variedade de lixeiras encontradas pela cidade: cada gestão adota uma), existem também questões relativas ao desenho das cidades e na forma como este interfere no design do mobiliário em si.
O principal problema está na falta de planejamento, o que acaba por gerar um traçado urbano composto por leitos carroçáveis largos e calçadas estreitas. Tratadas como “terra de ninguém”, e não como áreas públicas, as calçadas, e demais sítios públicos, sofrem com uma desordenada ocupação, onde todos se apropriam e fazem uso destes espaços da maneira que melhor lhes convém.
Moradores destroem a uniformidade das calçadas para facilitar o acesso de seus veículos às garagens, além de ocupa-las com “berços” para sacos de lixo, e canteiros mal dimensionados, muitas vezes com vegetação inadequada. Comerciantes e restaurantes ocupam as calçadas com produtos, anúncios e mesas onde nem sempre há lugar para conjugação destas funções com a circulação de pedestres à que se destina. Exceto talvez por experiências pontuais, como o projeto Rio Cidade, na capital fluminense, as companhias de serviços públicos, correios, transportes, telefonia, luz (sejam elas privatizadas ou não) fazem uso das calçadas sem a adoção de regras claras de ocupação e distribuição de seus mobiliários. Diferentes alinhamentos e distâncias das guias fazem com que postes, cabines telefônicas, caixas de correio, pontos de ônibus etc se tornem obstáculos ao transeunte, criando “afunilamentos” bruscos a medida em que as larguras nominais de circulação são reduzidas. O que deveria ser um serviço, se torna um transtorno.
Outro problema trazido pela falta de regras de locação dos mobiliários é sua má distribuição, criando ausências e excessos de elementos ao longo dos bairros, o que somado ao crescente aumento da poluição visual, muitas vezes dificulta a localização dos serviços procurados.
Simultaneamente ao olharmos para as unidades desse conjunto desordenado e variado de elementos, encontraremos uma repetição dos mesmos problemas de partido de projeto. Bancas de jornal que silenciosamente e despercebidamente ocupam aos poucos quase a totalidade da calçada ou cujo porte e desenho se mostra inapropriado ao local, telefones públicos que não oferecem abrigo à poluição sonora e que não vem acompanhados de marcações no piso para alertar os deficientes visuais de sua presença, bancos sem ergonomia que convidam mais à sua partida do que a permanência no local, a quase ausência ou inexistência de sanitários públicos adequados, etc… Cada um destes elementos apresenta uma problemática própria conforme seu uso ou implantação. No entanto, em lugar de trabalharmos o design destes objetos como a solução ao seu desenho inadequado, buscamos costumeiramente apenas uma nova estética, mantendo sempre o módulo de desenho habitual.
Na mesma medida em que as cidades são desenhadas, ou alteradas, ignorando-se completamente a ergonomia e o conforto de seus cidadãos, o mobiliário urbano é projetado sem considerar atentamente a situação local, nem as características culturais de usos e necessidades provenientes do clima brasileiro e do modal de transporte público adotado.
Um dos exemplos mais evidentes deste fato são os projetos desenvolvidos e em uso para pontos de ônibus. A adoção de padrões, materiais e estilos provenientes de países que, alem de poderem arcar com uma manutenção mais onerosa, possuem clima temperado, e que não tem nos ônibus, seu principal modal de transporte público constitui a maior evidência desta contestação.
No Brasil, os ônibus não trafegam como suplementar aos demais transportes de massa e em muitas cidades chegam a ser os únicos transportes públicos disponíveis. Pontos de ônibus lotados demonstram claramente que suas estruturas dispostas já não mais funcionam como abrigo, servindo apenas como pontos de referência. Em locais de maior uso, a justaposição de diversas coberturas lado a lado, demonstra claramente a demanda por um desenho mais apropriado e modular. Sua ineficiência fica evidente em dias de chuva mais forte, onde beirais curtos, e espaçamentos irregulares impossibilitam o abrigo eficaz dos usuários que, mesmo sob os abrigos, tem que costumeiramente recorrer a guarda chuvas, seja para se protegerem da água que vem de cima, o daquela que respinga por baixo. Em dias de sol forte, as placas de cobertura em material transparente ou translúcido não criam o sombreamento necessário à proteção das radiações solares, mostrando-se completamente inadequados ao clima tropical.
Em resumo. A quase totalidade dos pontos de ônibus, foram desenvolvidos e são eficientes apenas para o abrigo de 4 ou 5 usuários (no máximo), em paises onde o ônibus é apenas um modal complementar de transporte, onde as chuvas são fracas e o sol ameno deve ser ao máximo aproveitado.
Ainda assim, ao observarmos os novos projetos profissionais e acadêmicos para este objeto, a grande maioria faz uso massivo de coberturas transparentes, evidenciando que os projetistas em nenhum momento são usuários destes mesmos equipamentos.
O que falta para o mobiliário urbano brasileiro não é “design”, mas um desenho adequado.
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