30/06/2010
Se você está lendo este texto, é provavelmente porque o título acima gerou-lhe alguma forma ou de curiosidade ou repulsa.
Repulsa, foi também o que senti, anos atrás, ao ver pela primeira vez, no bazar de um N-Design (encontro anual e nacional de estudantes de design) a venda de um adesivo com a frase “MORTE AOS MICREIROS”. Não era a primeira vez que encontrava esta frase, ou mesmo me deparado com diferentes versões onde o suposto ódio aos micreiros era manifestado. Preconceitos sempre me incomodaram.
Na época de faculdade, de conversas em bares à listas de discussão na internet (principalmente) o tema dos “sobrinhos” ou dos “micreiros” sempre aparecia. O consenso era que estas pessoas que sabem usar alguns softwares e se aventuram a fazer cartazes, sites, logotipos etc, estavam destruindo o nosso mercado, cobrando valores irrisórios e produzindo peças gráficas e digitais de qualidade duvidosa.
Cresci na profissão ouvindo meus colegas falando mal dos micreiros. Mas sabe da verdade? Eu nunca conheci um micreiro. Conheço apenas designers.
Minha questão aqui não é a aparentemente eterna e definitivamente imaginária briga que vemos entre micreiros e designers. E sim o que ela abriga: A fantasia de um inimigo, que age de maneira leviana, é anti ético, plagiador, grosseiro, e que acaba com o nosso mercado.
Nunca soube de nenhum micreiro que tenha realmente me “roubado” um cliente. Provavelmente isso até já ocorreu, mas não seria muito diferente das muitas vezes em que perdi projetos para outros designers de outras especialidades (produto, web etc) que cobraram valores irrisórios ou criaram logos de qualidade duvidosa ou para quebrar um galho para o cliente, ou para faturar um extra.
Nunca fui insultado por um micreiro, mas por outros designers, diversas vezes. O mais comum ocorria no meu início de carreira, em listas de discussão onde a simples divergências de ideias transformavam-se em campos de batalha mortais pessoais. Geralmente os “amadores”, que participavam destas listas estavam muito mais interessados em absorver o máximo de conhecimento possível, do que entrar em picuinhas e discussões pessoais.
Claro que no caso de plágios, tanto de marcas quanto dos textos do nosso site, já tivemos problemas com micreiros. Ainda temos e infelizmente isso é uma triste verdade. Mas também sofremos plágios feitos por publicitários, por profissionais de marketing, e até por engenheiros agrônomos. Infelizmente também é verdade que o número de plágios que sofremos por micreiros é praticamente o mesmo dos cometidos por designers ou estudantes de design.
Mas voltando ao assunto, nenhum micreiro jamais entrou em contato comigo se fazendo passar por um cliente para descobrir os valores que cobramos no escritório por um projeto. Mas no período que ainda respondia os contatos que chegavam pelo site, a frequência de designers e estudantes de design que o faziam era quase quinzenal. Uma simples busca do nome e e-mail no Google delatavam o autor. Apenas uma observação aqui: Este tipo de atitude “esperta” pode até ser enquadrado como falsidade ideológica. É crime.
Também nunca vi nenhum micreiro favorecer seus amigos em concursos, publicações ou exposições. Nunca vi um micreiro fazendo difamação para prejudicar seus desafetos ou falando mal dos colegas pelas costas. E nunca conheci nenhum micreiro com o ego tão inflado que tornasse a relação pessoal uma tortura para os outros a sua volta. Mas como falei antes, nunca conheci nenhum micreiro. Não é mesmo?
Essa é apenas a minha experiência no assunto. Talvez a sua seja diferente. Talvez você tenha tido realmente muito mais problemas com micreiros do que eu. Não duvido disso. Mas o que lhe pergunto é:
Você já não passou pelos mesmos problemas também com seus colegas designers?
Talvez em lugar de procurarmos um bode expiatório (ou aceitarmos aquele que nos é convenientemente apresentado) devêssemos estar mais preocupados com o tipo de profissional que estamos formando, e que tipo de ética este profissional está construindo no nosso mercado.
O mercado de design é o que fazemos dele, e a realidade que se apresenta hoje, boa ou ruim, é apenas um reflexo das pessoas que neles atuam. Isso vale desde as faculdades, no ensino e formação, passando pelos profissionais, escritórios e suas práticas, até as associações de classe existentes.
Os inimigos não são os micreiros. Infelizmente, somos nós.
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Oi Guilherme,
Acho que o povo gasta muito tempo apontando o que o outro fez de errado, qual sua formação – quando ela existe – e, dependendo dela, se pode ou não opinar sobre determinado assunto; se ele desenha antes de colorir digitalmente; se usa esse ou aquele software…
Sinceramente, eu acredito na educação e no conhecimento como práticas de um processo eterno de aprendizagem. Todos os dias a gente pode aprender alguma coisa. De qualquer lugar. De qualquer pessoa e isso sim é importante.
Tanto faz se eu desenho direto no computador ou se encho minha mesa de rabiscos até chegar mais perto do que estou pensando. Saber aonde se quer chegar é tão importante quanto o caminho , sabe? O lápis e o papel, o computador, esse ou aquele software, pra mim, são apenas ferramentas. E quem decide como e quando usá-las, sou eu, enquanto profissional. Se vai ficar bom, bem, dai já são outros quinhentos, hehehe
Abraço!
[...] This post was mentioned on Twitter by Victor Campanha, Fernando Reule, giovani castelucci, João Siqueira™, Luciana Perdigão and others. Luciana Perdigão said: Um grande problema da raça: EGO // http://migre.me/TkWm ( via @Sebastiany ) [...]
incrivel como “o inferno são sempre os outros…” rs!
adorei!
Excelente argumentação. Curioso que comecei a vida como um “micreiro” no sentido real da palavra. Em meados dos anos 80 e 90, micreiro era o autodidata que enveredava pelo caminho da informática e nada tinha a ver com design ou qualquer outra atividade gráfica. De micreiro orgulhoso (sim, naquela época era quase um título e causava orgulho, algo como um iniciante a Hacker) tornei-me programador em uma das maiores multinacionais do país. Então a vida mudou, abandonei tudo isso e entrei para a faculdade de design e fui descobrir “la dentro” que micreiro era um termo pejorativo, ofensivo, etc”. Foram quatro anos de faculdade abandonada no último período por questões de trabalho e só agora retomada (seis anos depois). Nesse intervalo adentrei o mercado profissional atendendo agências de publicidade, sempre como “artista 3D e animador digital”, nunca como designer, primeiro por quê não concluí ainda o curso, segundo por quê sou mesmo animador e não vivo de projetos de design. No entanto, nesses quase sete anos de mercado convivendo com agências e muito designers minhas experiências me levam a assinar embaixo de tudo que você falou. Realmente, nunca conheci um micreiro! Na verdade o único micreiro que conheço é um ex-micreiro, eu mesmo, e dos tempos antigos ligado a informática e programação. Já designers… conheço muitos e quanta dor de cabeça causam uns aos outros! É isso, parabéns pelo artigo.
Não concordo com todos os pontos do artigo. Na minha opinião, o problema é muito mais complexo.
O artigo resumiu a questão a uma briga tola e sem sentido.
Porém, muitas empresas são lesadas porque não sabem como escolher bons profissionais. Nem todo mundo cai na mão do ‘micreiro’ por escolha própria.
Porém, numa coisa concordo plenamente contigo:
“O mercado de design é o que fazemos dele, e a realidade que se apresenta hoje, boa ou ruim, é apenas um reflexo das pessoas que neles atuam.”
Abraços,
Mônica
Seguindo pela sua lógica devemos liberar para que os curandeiros executem trabalhos médicos menores.
Quanto ao fato de você não conhecer micreiros, precisa sair mais de casa. Nunca perdi trabalho pra um, pelo menos não até onde eu saiba, mas conheço vários.
Achei muitas das suas afirmações inocentes, como por exemplo de que micreiros não te telefonariam se passando por cliente.
Não sou contra micreiros, mas acho que certas liberdades dificultam a legalização de nossa profissão.
Oi Vitor, Tudo bem!
Acho que vale a pena uma nova lida no artigo. Não estou em nenhum momento defendendo os micreiros e suas práticas. Nem em nenhum momento comentei que a atuação deles deveria ser liberada.
Oi Mônica, tudo bem!
Na minha visão a proposta do artigo não é resumir “a questão a uma briga tola e sem sentido” e sim jogar um pouco de pedra no nosso próprio telhado de vidro.
Apenas estou apontando que muitos de NÓS designers sofremos das mesmas faltas (de ética, moral, coerencia etc) e fazemos exatamente as mesmas coisas que tanto gostamos de criticar nos outros.
Concordo que o cliente muitas vezes é o maior lesado quando contrata um amador. Mas pergunto: O que será que é PIOR para o NOSSO mercado? Um cliente que contrata um AMADOR, por não saber a diferença, e recebe pelo pouco que pagou um projeto ruim? Ou um cliente que contrata um DESIGNER para uma tarefa que não é especializado e recebe por isso um mesmo trabalho inferior?
Quando um cliente contrata um micreiro, o prejudicado maior é ele. Quando o cliente contrata um DESIGNER sem experiência no projeto específico que foi contratado, os maiores prejudicados, pelo menos na minha sincera opinião, somos todos nos.
Putz… vou falar algo até pesado. Me perdõem:
Concordo que o cliente que contrata um amador é sempre muito prejudicado. Já pegamos vários casos de clientes que nos procuraram porque descobriram que as próprias marcas eram plágios… Triste não?
Mas o cliente que não consegue diferenciar (no orçamento, valores, método, contrato, reunião conduta etc) um profissional de um amador… na minha sincera opinião: É UM CLIENTE AMADOR
Acho que “micreiro” é todo aquele individuo, que profissional de design formado ou nao, “mandou mal” em alguma coisa.
Seja no atendimento, no desenvolver do projeto, na determinacao de valores, no relacionamento com outros profissionais ou no raso discurso de opiniao estetica.
Esse “mandar mal” é que é perigosamente nebuloso. Pra muitos enquanto algo muito grave foi feito, pra outros é pratica corriqueira, natural e aceitavel.
Acho que os micrentos infestam o mercado e atrapalham o posicionamento de alguns designers pelo simples fato de também se intitularem “designers”. Pode parecer mesquinho mas é uma questão de reserva de mercado.
A “briga” não deve ser com eles e sim com os clientes que os contratam achando que são designers como os tantos formados por aí e que fazem um trabalho bem feito e nesse caso, têm suas imagens prejudicadas, porque quando o profissional chega até o cliente e o encontra “desconfiado”, ao dizer que é um designer profissional, recebe como resposta: “o anterior, que fez um trabalho ruim, também disse isso”.
Temos que nos adiantar e educar o cliente/mercado antes que os micrentos se apresentem como designers e acabem reduzindo nosso espaço de trabalho por conta de suas práticas amadoras.
E eu NUNCA tive problemas com outros designers, já com micrentos tive vários.
O Zé da esquina montou um carrinho da cachorro quente na garagem da sua casa e precisa de um “loguinho” para o seu cardápio.
Quem vai fazer?
A Vale decidiu redesenhar sua marca.
Quem vai fazer?
Não entendo também esse ódio eterno pelos micreiros e sobrinhos, eles nunca terão argumentos o suficiente para cobrar 10 mil em um projeto, o projeto deles sempre é na margem mais baixa possível, o cliente que acredita que economizando vai ter o mesmo trabalho, sinto muito, mas vai ao invés de economizar vai jogar dinheiro fora, vai aprender errando.
Eu fico indignado sim é com outros designers que perdem o seu tempo criticando de forma negativa o portfólio do amigo, que vivem questionando aquela marca horrível que está no mercado, que se acha o tal.
Detalhe, a grande maioria hoje que está concluindo um curso de design ou até mesmo alguns que já tem um diploma em mãos, não tem a mínima noção do que é design, é triste, mas é verdade.
Adoro pesquisar, estudar, analisar e elogiar bons trabalhos ao invés de criticar os ruins.. A única coisa que hoje não faço é conversar sobre design com outros designers, já não tenho mais saco para ficar ouvindo gente reclamar, ficar criticando e se achando, é muita patifaria!
Prefiro mil vezes tentar conversar sobre design com um leigo do que com um designer.
Ë isso!
Sempre gostei muito de conversar sobre design com outros desigers e nunca tive problemas quanto a isso. Nunca tive problemas também quanto à ética ou postura de meus companheiros de mercado e sempre acontece indicação, parceria, troca de idéias sobre metodologia, valores etc.
Acho que os designers que têm problemas precisam renovar seu círculo de amizades rss