04/10/2009
A idéia da criação em Design como um ato instantâneo, quase divino, está muito longe de retratar a verdade. Levou mais de 100 mil anos para o homem primitivo, à partir das referências de seu ambiente, descobrir como dominar o fogo, e apenas poucos anos para o mesmo homem transformar a internet que conhecemos hoje. Ao olharmos para o último século, fica óbvia a crescente aceleração pela qual passou a área tecnológica. Similarmente, nas artes, foram séculos até o surgimento do impressionismo, mas poucas décadas até sua “superação” pelo expressionismo. Hoje, quase meio século após o revolucionário New Look de Dior, que marcou uma década, a moda é substituída continuamente por coleções que duram pouco mais que alguns meses. A aceleração das possibilidades criativas só é possível nesta escala, pois são também mais amplas as referências, em um mundo onde nosso repertório cresce em progressão geométrica .
Não vou questionar aqui as demandas crescentes de consumo na contemporaneidade. Isso fica para outro artigo. Mas é importante compreendermos como a pesquisa pode auxiliar nossos projetos e gerar a tão desejada diferenciação através do design…. Seja na marca da empresa, seus produtos, embalagens etc.
Não é de se estranhar que os primeiros projetos de televisores se parecessem tanto com os rádios do mesmo período. Afinal o que é o televisor aos olhos de seu inventor, se não um rádio com imagens? Até hoje os fornos de microondas em nossas casas fazem referência aos já aposentados fornos elétricos. Também não surpreende, em um mundo onde novas empresas são abertas diariamente, que as tantas marcas se pareçam tanto.
Neste cenário nunca foi tão importante para o designer a etapa de pesquisa na geração de parâmetros e referências, ou para criações de novos produtos (seguindo uma tendência natural da categoria); ou para conhecer os demais concorrentes e fazer justamente o oposto; ou mesmo para compreender de que maneira linguagens de outras categorias possam ser “emprestadas” e ajustadas à produtos novos. No entanto, ignorar a pesquisa como etapa importante de uma metodologia, principalmente em projetos voltados para diferenciação, é tão leviano quanto comum.
Na universidade, exigimos e julgamos os trabalhos acadêmicos mais pelos resultados do que pelos processos. Premiando efeitos pontuais, sem garantias que a mesma qualidade possa ser reproduzida em projetos subsequentes do mesmo autor ou autores. Legitimamos assim o insight pontual e individual, que passa a ser confundido com a idéia superestimada de dom, criatividade ou mesmo sorte. Características que não garantem nem a sobrevivência do produto, nem de seu autor, no mercado atual.
A sensação que permanece é que seria mais legítimo, e “criativo” (ou mais fácil), reinventar algo revolucionário como a roda, sendo ignorante de sua existência, do que repensar os meios de transporte para chegar a conclusão (ou não) de como aperfeiçoá-los, mesmo que apenas um pouco.
Precisamos assim compreender que só há desenvolvimento futuro à medida que reconhecemos a pesquisa como principal ferramenta para inovação. Aceitando assim que pesquisar é conhecer, referenciar é reconhecer, e criar é apenas o resultado deste processo.
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