05/03/2010

Como muitos alunos em sala de aula já me perguntaram isso, e como as mesmas perguntas apareceram no Formspring da Sebastiany, resolvi produzir esse texto que foi adaptado a partir da Aula 3 do curso de Manuais de Identidade Visual da Design Total, que debate a pertinência do uso de Malhas Construtivas nos dias de hoje.
Porque Fazer Malhas Construtivas?
Ainda mais nos dias de hoje onde os recursos tecnológicos de reprodução das marcas são abundante?
Para entendermos esta questão, devemos voltar primeiro um pouco no tempo, em uma época em que o computador não fazia parte da dinâmica de criação e produção de um escritório de design.
Antes do introdução do computador e das soluções que o acompanharam, tudo era trabalhoso e manual. Para se fazer uma simples tela de serigrafia era necessário desenhar a marca de forma perfeita com nanquim em uma folha de papel vegetal. Esse desenho seria o “fotolito” para se produzir as telas de serigrafia com o logo a ser aplicado, fosse em uma camiseta, veículo ou painel de sinalização.
Se a marca possuísse mais de uma cor, seria necessário fazer máscaras individuais para cada uma dela. E se fosse aplicada em diferentes tamanhos, o mesmo problema multiplicado. Além de trabalhoso, este era um exercício que tinha que ser refeito toda vez que havia um erro no desenho ou se por qualquer motivo a arte ficava comprometida. Um simples espirro, poderia por tudo a perder. Não é à toa que neste contexto a maioria das marcas criadas por designers profissionais eram geométricas, sintéticas e tinham em seus manuais a indispensável malha construtiva. Tudo para facilitar a correto desenho da marca em menor tempo e assim facilitar a sua aplicação.
Os processos gráficos de fotocomposição já haviam dado um salto de qualidade na produção de impressos nas décadas de 70 e 80, mas o trabalho manual permaneceu ainda presente em outras aplicações, como sinalização, publicidade em muros, empenas e paredes (pintados manualmente) bem como a aplicação em veículos, toldos, uniformes e outras mídias.
Era realmente uma realidade muito diferente da atual. É verdade!
Por isso mesmo não é de se estranhar o discurso hoje comum entre alunos de design, e mesmo entre profissionais, quanto a crescente irrelevância do detalhamento construtivo da marca. O argumento utilizado é que as novas tecnologias “garantem”, a partir de arquivos vetoriais, a fidelidade de reprodução das marcas em processos de impressão digital, offset, serigrafia, (uma vez que podemos a partir do mesmo arquivo, fazer os fotolitos para os silks) ou mesmo diretamente para o uso em plotters de recorte em vinil, máquinas de bordados e em todas as mídias digitais.

Se olharmos única e exclusivamente por esta faceta, realmente não faz sentido ter todo o trabalho de fazer uma complicada, e as vezes chata, malha construtiva. As novas tecnologias economizaram tempo e recursos que antes demandavam uma extensa mão de obra de Artes Finalistas (profissão hoje quase que extinta), e maiores prazos (e custos) para execução e implementação dos projetos.
Mas será que hoje, ao olharmos para a realidade do país, as novas tecnologias estão verdadeiramente presentes ou são acessíveis para todas as localidades onde as marcas que projetamos atuam? Basta ir as cidades do interior de qualquer estado para responder que não. É claro que este cenário tende a desaparecer, mas o problema da execução tende a permanecer mesmo que em menor escala.
Ainda hoje, a execução de muitas das peças tridimensionais para sinalização ainda demandam projeto executivo de suas partes e moldes. Já existem disponíveis maquinas de recorte a laser para confecção de letras caixas e luminosos, mas como comentamos, ainda não em todas as localidades onde uma marca irá atuar. Esse ao meu ver é o primeiro argumento em favor das Malhas Construtivas.
Depois da tecnologia, o segundo principal motivo para se desenvolver uma Malha Construtiva é CONTROLE. E aqui a tecnologia é uma faca de dois gumes. Se por um lado o arquivo digital proporciona uma facilidade de aplicação, possibilita também uma facilidade de alteração.
Marcas distorcidas, achatadas, inclinadas são constantes quando manuseadas por não-profissionais que adaptam a logotipia ao seu layout, e não o contrário. Uma vez que esse mesmo arquivo digital, alterado, começa a migrar sem controle para outros usuários e layouts, ele se espalhando sem controle e compromete o padrão da identidade.
Neste contexto a Malha Construtiva passa a assumir um papel de controle e verificação das proporções do desenho. Como verificação, serve para detectar erros através da comparação entre o desenho presente no manual e o aplicado no layout. Assim o cliente pode comparar e verificar se existe ou não problemas de reprodução na marca e exigir refeitura de projetos inadequados, pois está de posse do mesmo manual utilizado como guia para criação. Como controle, serve como documento legislador, que rege o uso da marca.
O terceiro motivo para se fazer uma malha construtiva deriva dos próprios problemas gerados pela era digital e pelas novas tecnologias. Sabemos que o papel pode durar mais que 2000 anos se bem acondicionado, mas será que sabemos ao certo qual a vida útil e durabilidade de um CD? Alguns falam em 10 anos no máximo. Os disquetes de 3.1/2 (por exemplo) nunca foram uma mídia confiável, e ficam facilmente danificados ao longo do tempo, e talvez você tenha até um pouco de dificuldade para encontrar um computador que ainda tenha um driver de disquete.
Mesmo quanto aos softwares. Não são apenas as versões mais antigas que não conseguem abrir as mais novas. Às vezes o contrário também acontece. Como tenho mais idade, já tive problemas em lidar com arquivos do CorelDRAW 5 que não abriam na versão 8 em diante. Era necessário instalar a versão 5 para salvar como versão 3, para então poder abrir nas versões mais novas. Acho que hoje seria quase impossível fazer a mesma operação.

O que se dirá da possibilidade de importação e interação entre diferentes softwares? Até 10 anos atrás passar um arquivo do corel para o ilustrator era um terror. Esse tipo de problema tem diminuído, é verdade. Mas ainda existe, e novos softwares entram no mercado constantemente.
Empresas de Arquitetura e engenharia, por exemplo, utilizam um software de desenho vetorial chamado AutoCAD. Para converter os arquivos em vetor de uma marca para este programa, até alguns anos atrás, eram necessários alguns malabarismos com outros softwares e filtros. Em alguns casos, redesenhá-la no AutoCAD era até mais fácil do que tentar importar de outros programas. Nas para fazer isso bem feito, só com uma malha construtiva.
O quarto e principal ponto que justifica o desenvolvimento de uma malha construtiva, é que, uma vez a marca aprovada pelo cliente, constitui uma oportunidade para um último estudo de aperfeiçoamento do desenho através do detalhamento e do estudo de proporção e geometria da marca.
Nenhuma nova tecnologia ou software nunca irá tirar a oportunidade que uma malha construtiva oferece para melhorar ainda mais o seu design.
Ao meu ver, o único argumento que resta para não se fazer uma malha construtiva, é a preguiça.
Mais malhas em: http://www.flickr.com/groups/logo-grid/
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Pode parecer romantismo meu, mas lendo o artigo sobre malhas, me lembrei de uma frase da biografia de Da Vinci: “A natureza está escrita em caracteres matemáticos. Tudo na natureza é ratio, razão, proporção”.
Done! =)
Pode parecer romantismo meu, mas lendo o artigo sobre malhas, me lembrei de uma frase da biografia de Da Vinci: “A natureza está escrita em caracteres matemáticos. Tudo na natureza é ratio, razão, proporção”.
Done! =)
Muito bom o texto, e concordo plenamente, “o único argumento que resta para não se fazer uma malha construtiva, é a preguiça”. Independente da proposta de logotipo, utilizar a malha e medidas corretas e simétricas agrega um aspecto de cuidado e beleza indespensáveis a um projeto gráfico. Procuro sempre ser muito cuidadoso com alinhamento, proporção e simetria nos meus trabalhos, principalmente logotipos. Acho fundamental!
Malhas (e diagramas de construção) como as exemplificadas no artigo não são “decifráveis” para a grande maioria dos designers contemporâneos. Minha origem de formação em projeto mecânico, e a sua em Arquitetura, permitem um livre trânsito neste universo elemental mas… não se pode exigir do mercado o que o mercado apresenta défit crescente. Apesar de ser um grande fã dos diagramas de construção constato com certa tristeza (e já há algum tempo)que os mesmos só servem para orientar “pintores de Tapumes” e sucumbem aos processos de reprodução cada vez mais fidedignos (e neste ponto… graças a Deus).
abs
Koehler
Obrigada, muito elucidativo.